Dias de luta dias de Glória.

O que sempre me incomodou nos movimentos pró-melhorias sempre foi a ideia de conduzir às massas, ou mesmo ser conduzido pelos discursos acalorados espertamente orquestrados pelas bandeiras e ritmados pelos tambores dos manifestantes.

Foto por NEOSiAM 2021 em Pexels.com

Fábio Oliveira Santos.
Durante o percurso da vida, diria mesmo na morte, temos momentos que são incomparáveis, pois podemos dividir nosso legado ou mesmo compartilhá-los sem a preocupação de pagamento em troca, somente a conversa.

Na atualidade, o mal deste século é justamente a falta dela. Existem muito mais pessoas que no passado, mas ainda assim a solidão é a tônica. Velocidade das relações utilitárias. Reflexo de um sistema econômico que não sei se é bom ou ruim, mas é o que impera.


Um amigo dos tempos de sindicalismos encontrou-me, morreu por insuficiência respiratória, fumava muito. Lutávamos em pró da causa em todas as empresas de Osasco. Ótimos tempos, sofridos mais históricos. Rendeu-nos boas histórias para nossos filhos e netos, além, evidentemente, à formação das gerações futuras.

Éramos uma espécie ser histórico ambulante. Meu amigo chamava-se Jorginho. Foi preso na ditadura brasileira. Superou. Tornou-se professor. Situação semelhante ocorreu com outro lutador, João, conhecido como Jão. Recebeu do governo o passaporte de ida para outro país.

Chamavam-no de Comunista. Igualmente ocorreu com Jura, minha irmã tem esse nome, mas pasmem é nome de homem é diminutivo de Juracy, lutou tanto que ensandeceu. Parou na psiquiatria. Acreditava na revolução.

Vestia camisa vermelha. Creio que mesmo agora ainda acredita e usa aquela velha camiseta.


Na história da humanidade, sempre houve disputas, sejam por alimentos, por mulheres, por dinheiro, por emprego, por melhores condições de trabalho, enfim…


Entretanto, também sempre se procurou justificar as disputas, ou legitimar as ações, geralmente os discursos produzidos eram feitos pelos vencedores, ou os caras que possuem dinheiro no tempo atual. A ideia é justificadora. Até a página dois.

Daí para frente à realidade é outra. Véu de consciência. Realidade construída. Jorginho sempre dizia que era necessário fazer a mudança, mas sem trocar de senhor. Por outro lado, eu acreditava que se poderia mudar, mas através da subversão. No fundo as duas coisas são iguais.


O que sempre me incomodou nos movimentos pró-melhorias sempre foi a ideia de conduzir às massas, ou mesmo ser conduzido pelos discursos acalorados espertamente orquestrados pelas bandeiras e ritmados pelos tambores dos manifestantes.

Os indivíduos tornam-se mais suscetíveis à hipnose do momento. Mágica realizada pelos oradores! Para diminuir a ansiedade, Jorginho disse-me: mesmo na Revolução Russa as massas foram direcionadas, nada se pode conquistar com a indiferença.


Quem controla o tempo, controla as massas, daí a demarcação do ritmo. Jura pensou.


Eu, fui sindicalista. Meus amigos estão comigo, outros…


Não deveria ser assim, mas, mesmo nessa situação, quando recebemos a notícia que um amigo morre deixa-nos fragilizados. Uma vez, ainda em vida, recebi a infeliz notícia, Ibraim Novak, deixou-nos, na verdade deixou outros, tenho-o aqui a meu lado.

Naquela época deixei tudo para trás. Temi por mim, não era mais garoto. Vários verões já passamos. Não gosto de lembrar disso. A história se renova a cada ação.


Vejo os manifestantes atravessarem a Avenida Paulista, trinta anos atrás estávamos lá também. Parece que me vejo ali. Dias de Luta dias de Glória. Jorginho ri. Homenagem a Jura, que não é minha irmã, lembranças de Jão que voltou para a pátria, Jesus e Madalena estão entre nós e os doze discípulos que não são da santa ceia… Fany, Agnes, Bel, Sueli, Renato, Carlos, Miusse e tantos outros… 

Autor: Fábio Oliveira Santos

Advogado, professor, marido, pai de duas meninas lindas...

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